Funções executivas

Inteligente, mas muito desorganizado. As funções executivas envolvem a capacidade de o cérebro se ordenar para cumprir tarefas do dia a dia. Poder de julgamento e de decisão, memória de trabalho, capacidade de inibir comportamentos inadequados são algumas das áreas afetadas.

Como funciona a frente do cérebro

Exames neuropsicológicos aplicados no Brasil englobam escala Wechsler, CMMS, matrizes coloridas progressivas, Teste de trilhas A e B (Montiel e Seabra), prova escrita sob ditado (versão reduzida), Confias (consciência fonoaudiológica), teste de atenção por cancelamento (Montiel e Seabra) BPA, Token Test, Cubos de corsi, teste infantil de nomeação e teste de repetição de palavras e pseudopalavras.

Contudo, nem sempre as dificuldades de assimilar conteúdo vão aparecer dentro dessa linha convencional de exames. Nos Estados Unidos, auxiliam os exames aqueles que testam o grupo de habilidades conhecido como “funções executivas”. Um dos mais conhecidos é o Vineland Adaptive Behaviour Scale (VABS), que tem como subcategorias a comunicação, as funções sociais e a vida diária.

As funções executivas representam o conhecimento aplicado à vida diária, a habilidade de resolver coisas corriqueiras e de a capacidade de ter um controle inibitório, por exemplo. São definidas como o conjunto de habilidades cognitivas necessárias para controlar e regular nossos pensamentos, emoções e ações.

A neuropsicóloga infantil Jennifer Janusz, numa conferência sobre pacientes com variações cromossômicas, definiu as funções executivas como o processo que envolve comportamento direcionado por propósito e meta. É o “centro de comando” ou condutor das habilidades cognitivas.

Alguns exemplos:

• Planejamento e sequenciamento

• Capacidade de captar a essência de uma situação complexa

• Habilidade de prestar atenção a vários componentes ao mesmo tempo

• Resistir à distração

• Inibir respostas inapropriadas

• Manter um comportamento por um período prolongado de tempo

Podemos dividir as funções executivas em três campos de regulação:

1 – Comportamental (impedir o impulso e autocontrolar) Normalmente, regulamos para mais ou para menos nosso comportamento de maneira automática, dependendo de como outras pessoas reagem. Muitas vezes, nas crianças com aneuploidias, essa regulação precisa ser treinada.

2- Emocional (alternar e flexibilizar sentimentos e estratégias /controle da impulsividade) Da mesma forma que aplicamos pesos e contrapesos ao nosso comportamento de maneira automática, geralmente o fazemos com emoções, sentimentos. Está amplamente relacionado à vida social. Uma criança afetada por aneuploidia pode ter dificuldade em regular as emoções, razão pela qual há uma descompensação emocional, ou um “surto”. Muitas vezes não é birra, é a falta de habilidade para regular uma frustração, uma saudade, algo que foge do campo de ação dela.

3 – Cognitiva (uso da memória funcional, planejamento de tarefas, organização de materiais, começar o trabalho e monitorar o trabalho). Essa área está também relacionada à capacidade de comunicação (iniciar uma conversa, organizar o que dizer e focar no que está sendo dito). Exemplos: você liga para alguém e essa pessoa diz que o telefone para o qual você deveria ligar é tal. Você decora o número e imediatamente o esquece assim que ele é discado. Não é uma memória de longo termo. É a memória “descartável”.  Crianças com aneuploidias têm dificuldade no uso dessa memória.

O planejamento também é debilitado quando envolve muitas etapas. Comandos como: escove os dentes, seque o cabelo, guarde a mochila e vá dormir é uma linha onde o raciocínio não acompanha. Talvez o caso não é que ele não queira fazer, apenas se perdeu com tantos comandos juntos. Melhor um comando por vez.

Num questionário feito aos pais de crianças 47XXY (Klinefelters) e de crianças 48XXYY os gráficos apontam mais dificuldade para quem tem um cromossomo Y a mais, principalmente em:

– Iniciativa: começar uma tarefa

– Memória operacional: capacidade de reter uma informação útil ativamente enquanto ela for necessária

– Planejamento e organização: antecipar eventos futuros e estabelecer metas.

– Organização material: conseguir colocar ambiente em ordem para que ele esteja funcional para a execução da tarefa (quarto, carteira na escola, mochila, etc).

– Monitoramento: estar atento aos erros, controlar a qualidade do que está sendo feito.

 

Furacão em atividade

Na prática uma criança que tem dificuldade nas funções executivas vai ter o seguinte perfil:

– Parece um tornado. Onde ela entra as coisas parecem que viraram de cabeça para baixo.

– Esquece de entregar uma tarefa de casa mesmo pronta. Ela pode ficar dias dentro da mochila sem ele se dar conta.

– Tem dificuldade em executar tarefas que levam tempo (por exemplo, um projeto de maquete, ou um trabalho que pode ser feito em um mês). Ela não consegue organizar o tempo.

– O pensamento é desorganizado, o que leva ao déficit de aprendizado. Para aprender as pessoas precisam de método.

– Perde noção do tempo e não o usa de maneira eficaz

– Muitas vezes ganha o estigma de preguiçosa ou não-perseverante porque não conseguem terminar tarefas básicas.